Iniciativa internacional busca diminuir poluição luminosa e preservar a escuridão

Meteoro no Havaí: céu escuro não deveria ser privilégio de áreas próximas a observatórios.

Meteoro no Havaí: céu escuro não deveria ser privilégio de áreas próximas a observatórios.

Ilha de Sark, Reino Unido – A ilha de Sark emerge abruptamente no Canal da Mancha. Com seus despenhadeiros que quase chegam aos cem metros de altura, sombreados por fileiras de vegetação escura riscada como um tabuleiro de damas trabalhado em tons de verde, a ilha parece ter se desgarrado da Inglaterra e flutuado mar adentro. Mas essa é Sark à luz do dia; à noite, no escuro, Sark quase desaparece. Não há iluminação nas ruas, nem carros ou caminhonetes, nem postos de gasolina acesos até o sol raiar. Há apenas os pubs, as fazendas, e as casas de seus 600 habitantes – e por isso Sark praticamente não emite luz à noite. A cerca de 70 milhas [110 quilômetros] ao sul da Inglaterra, e a metade dessa distância ao norte da França, Sark cobre somente duas milhas quadradas [3,2 quilômetros quadrados]. Em breve, porém, terá um impacto muito além de seu tamanho, como a primeira “Ilha de Céu Escuro” do mundo.

Até cerca de um ano atrás, eu nunca tinha ouvido falar de Sark. Aposto que a maioria das pouco mais de sete bilhões de pessoas no mundo possam dizer o mesmo. Mas pelo menos algumas pessoas a mais já sabem algo sobre esta minúscula ilha, graças ao reconhecimento que ela recebeu em 2010 da IDA, International Dark-Sky Association [Associação Internacional do Céu Escuro]. A IDA lançou o programa “Lugares de Céu Escuro” em 2001, com a designação da cidade de Flagstaff, no estado do Arizona, nos EUA, como a primeira “Cidade Internacional de Céu Escuro”.

Essa categoria mudou desde então para Comunidade de Céu Escuro, e a ela se uniram as designações de Parques e Reservas de Céu Escuro. Tais designações não são monopólio da IDA, já que programas similares existem em outros países. No Canadá, a Sociedade Real de Astronomia tem seu próprio sistema de Preservação do Céu Escuro, por exemplo, e a UNESCO lançou seu próprio programa de “Reservas da Luz das Estrelas”. Embora variem ligeiramente em suas abordagens, os diferentes programas estão trabalhando pelo mesmo objetivo: proteger a escuridão em um mundo cada vez mais saturado de luz artificial.

O que torna o caso de Sark particularmente interessante é que há pessoas vivendo na ilha, com seus medos do escuro, suas preocupações com segurança, seus desejos de “progresso”. Por mais que seja importante proteger áreas de céu imaculado, é a conservação da escuridão em lugares onde as pessoas de fato vivem que poderá mudar atitudes com relação à luz e à escuridão.

“Se você só quer tascar selos em lugares muito escuros, dá para fazer isso o quanto quiser, e cobrir o mundo com parques de céu escuro”, diz Steve Owens, o escocês que auxiliou Sark em um processo de dois anos com a IDA. “Mas isso não afetaria uma luzinha sequer. Sark, por outro lado, teve que despender algum trabalho com a luz. Por “trabalho com a luz”, Owens quer dizer que para se qualificar para o reconhecimento da IDA, a comunidade de Sark teve que agir: catalogar as luzes presentes na ilha, trocar aquelas que estavam causando brilho excessivo e refletindo no céu, e prometer que qualquer nova luz seria instalada de acordo com regulamentos antipoluição luminosa. Isso permitiu que a ilha correspondesse à definição da IDA de uma Comunidade de Céu Escuro: “uma vila, cidade, município ou outra comunidade organizada legalmente que demonstre dedicação excepcional à preservação do céu noturno através da implementação e do reforço dos códigos de iluminação de qualidade existentes, educação para o céu escuro, e apoio da cidadania ao céu escuro.”

“Eles na verdade querem lugares que estejam no meio do caminho”, Owens explica sobre a IDA. “Lugares que deveriam ser bons mas não são, e que podem se tornar bons caso se dediquem a trabalhar a iluminação. Não estão muito interessados em lugares que já sejam exemplares, porque esses não alcançariam o objetivo de melhorar a iluminação noturna.” Uma Comunidade de Céu Escuro, portanto, atua como um exemplo, para ajudar as pessoas a entender que a escuridão – e uma iluminação eficiente – não é somente para parques nacionais ou comunidades próximas a observatórios, mas algo por que qualquer comunidade pode almejar.

Iluminação artificial prejudica criaturas noturnas e crepusculares, como tartarugas marinhas e pássaros migrantes / Imagem: Nasa

Iluminação artificial prejudica criaturas noturnas e crepusculares, como tartarugas marinhas e pássaros migrantes / Imagem: Nasa

Nascido e criado em Inverness, cidade às margens do famoso Lago Ness, na Escócia, Steve Owens cresceu com forte interesse em astronomia, e hoje parcialmente se mantém ajudando comunidades a desenvolver suas identidades de céu escuro. Seu primeiro sucesso veio quando a IDA declarou o Parque Florestal de Galloway, no sudoeste da Escócia, o primeiro Parque de Céu Escuro da Europa. Galloway é o primeiro no que Owens espera se torne uma longa lista de parques no Reino Unido a tornarem-se reservas de céu escuro. “Não acho que seja excessivo”, diz ele. “Principalmente porque os parques nacionais no Reino Unido são chamados ‘os espaços de respiro da Grã-Bretanha’, e a medida do sucesso nesse quesito é uma medida de tranquilidade. Já realizaram vários estudos sobre os significados que as pessoas dão para ‘tranquilidade’, e sempre, entre as três primeiras respostas, está um céu noturno belo e limpo, e nada de poluição luminosa.”

Por mais que designações oficiais sejam importantes, Owens acredita que no fim das contas as áreas de céu escuro só vão se sustentar se forem apoiadas pelas comunidades locais. Quando programas de astronomia começaram a se estabelecer em Galloway, por exemplo, e pessoas que viviam no parque ou nos arredores começaram a ouvir que Galloway era um dos melhores lugares da Europa para observar estrelas, a reação delas era, como Owens conta com um sorriso: “Olha só, eu não sabia disso. Então eu vivo em um dos melhores lugares da Europa para observar estrelas? Isso é muito bom”. E isso eventualmente se consolidou, e as pessoas começaram a se entusiasmar.

“É tudo uma questão de educação”, diz Owens. “É questão de garantir que as pessoas tenham alguma noção sobre céu escuro. A maioria das pessoas, até pouco tempo atrás, não tinha. Acho que o verdadeiro ponto de conversão, o grande passo nesse sentido, veio através dos Parques de Céu Escuro. O Parque Florestal de Galloway pode afetar centenas de milhares de pessoas que venham visitá-lo ao longo dos próximos anos. E mais do que isso, 160 milhões de pessoas em todo o mundo ficaram sabendo desse nosso esforço. Certamente, na mídia britânica, isso levou a discussão sobre poluição luminosa a outro patamar.”

A popularidade da ideia dos lugares de céu escuro vem do foco em aspectos positivos, acredita Owens. “A mídia estava definitivamente interessada em divulgar uma boa notícia sobre ambientalismo, economia, turismo e astronomia.”

Valorizar a escuridão seria seguir o desejo do escritor e ambientalista norte-americano Aldo Leopold de alargar os limites de nossas comunidades. Ecologicamente, essa é uma questão vital: se nós realmente damos valor a criaturas noturnas e crepusculares, por exemplo, então não podemos deixar que nossas luzes artificiais destruam seu habitat. As ideias de Leopold se aplicam também no fato que o valor da escuridão não é sempre economicamente óbvio. Como podemos quantificar o valor da escuridão que permite a passagem de tartarugas marinhas e pássaros migrantes?

Leopold acreditava que a razão pela qual seres humanos somos tão limitados em nossa relação com o mundo natural é que nós não nos vemos como parte de uma comunidade que abrange também esse mundo. Ele argumentou que, enquanto seres humanos fizemos grandes esforços ao longo dos séculos para expandir nossa noção de comunidade humana para incluir uma variedade maior de raças, gêneros e etnias, não fizemos o mesmo ajuste com relação à terra. “A ética evoluída até agora se baseia em uma única premissa: de que o indivíduo é membro de uma comunidade de partes interdependentes”, escreveu ele. “A ética da terra simplesmente alarga os limites da comunidade para incluir o solo, as águas, as plantas, e os animais, ou coletivamente, a terra.”

Trabalhando no desértico sudoeste dos EUA nas primeiras décadas do século passado, Leopold certamente conheceu escuridões fantásticas. Mesmo depois de se mudar para a cidade de Wisconsin em 1924, ele provavelmente conheceu a verdadeira noite em sua cabana, um retiro a 40 milhas [64 quilômetros] da cidade de Madison. A escuridão não aparece explicitamente em sua escrita, mas tenho certeza que Leopold teria entendido o custo de perdê-la.

*Por Paul Bogard, Conservation Magazine
Tradução: Carolina de Assis

Fonte: Portal do Meio Ambiente

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